quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Quem disse que anabolizante é problema de atleta?

O uso de anabolizantes por parte de atletas com o objetivo de ganhar mais massa muscular e força é um antigo conhecido. Mas, os amadores também estão embarcando de cabeça no uso dessas substâncias. O professor de medicina da Universidade Federal da Bahia, Tarcisio de Matos, afirma que o consumo é maior entre jovens e acredita que há relação entre o uso predominante nessa faixa etária e a busca por afirmação identitária.
Aos 19 anos, Fabiano dos Santos, 26, segurança, “era pele e osso ”. Na tentativa de obter popularidade entre os colegas, começou a fazer uso de anabolizantes. “As pessoas passam a te olhar com outros olhos, o cara pega várias mulheres e os próprios homens passam a considerá-lo”, declara o ex- usuário.
Os esteróides anabolizantes são indicados para o tratamento de pacientes com osteoporose, desnutrição, impotência sexual e outras patologias. A automedicação e a superdosagem causam, segundo a Associação Brasileira de Estudos e Combate ao Doping, cerca de 50 efeitos colaterais, inclusive, esterilidade, câncer hepático e o óbito.
Os anabólicos de uso animal podem ser adquiridos com muita facilidade em Pet Shops e casas veterinárias de Salvador. Dr. ADE, como é conhecido (em referência ao complexo vitamínico animal) entre os amigos, tem 17 anos e já possui larga experiência com esse tipo de droga. “Eu malhei sem usar nada, mas via todo mundo ficando forte e eu não, por isso resolvi tomar esse lance”, conta o adolescente. Além de aplicar ADE em si mesmo, ele o injeta em amigos.
O risco de contaminação com o vírus HIV soma-se a todos os males decorrentes do uso dessas substâncias no caso dos injetáveis. O jovem utiliza também Durateston, droga recomendada para quem sofre de insuficiência hormonal, comprado por ele, em farmácias clandestinas do seu bairro, sem a receita médica exigida na venda desse tipo de medicamento.


Em competições esportivas, exames anti-dopings são rotina. Para os não- atletas, porém, não existe fiscalização. Paulo Rebouças, 41, proprietário e instrutor da academia Muscle e Fitness, localizada no subúrbio ferroviário, relata: "a gente não pode coibir essa prática, cada um sabe de sua vida. Não permitimos que aconteça dentro da academia, mas fora daqui cada um faz o que quer".


Comportamento “bombado”

No mundo da musculação, até mesmo os “grandes” podem ser seduzidos pelas promessas de crescimento instantâneo. George Viega, 31, esportista, sempre foi um homem forte, pesando em média 90 kg. Mas, queria ficar ainda maior, por isso começou a utilizar esteróides anabolizantes. “Eu fiquei tão fixado na idéia de crescer rápido que malhava três vezes ao dia e ainda achava pouco. Além disso, ficava meio tarado e insasiável sexualmente”, conta sorrindo.

O que Viega descreve como “taradice” é classificado, na lista de efeitos colaterais dos anabolizantes, como ereções freqüentes e contínuas que dão lugar, em longo prazo, a perda de ereção e esterilidade. O lutador se considera um homem de sorte. Pois, os amigos, que também utilizavam drogas para ganhar massa, ficaram com sequelas e ele não sente nada desde que parou de usá-las há cinco meses.
Segundo o professor Mauricio de Matos, há registros de dependência física do uso de esteróides anabolizantes. O usuário sente necessidade extrema de exercitar-se, ansiando a chegada dos horários reservados para malhação e o desenvolvimento de sua massa muscular constantemente considerada, por ele, insatisfatória. O indivíduo também se sente fraco, desanimado e até deprimido se não utiliza as drogas.
Apesar disso, o professor esclarece que anabolizantes não são substâncias psicoativas, não ocasionando, portanto, dependência química como o crack e outras drogas ocasionam. “É uma espécie de fissura que se assemelha à dependência química causada por substâncias psicoativas, mas não é a mesma coisa”, sintetiza.
Os usuários de drogas anabólicas tendem a ficar irritados com facilidade e a sofrer de desequilíbrio emocional. É o chamado comportamento “pit bull”. O professor de toxicologia da UFBA, José Antônio Menezes, explica que essas substâncias derivam da testosterona que, entre outras coisas, é responsável pelo comportamento mais hostil e agressivo. O esportista George Viega confessa que seu temperamento não era dos melhores antes de deixar os anabolizantes. “Por qualquer bobagem eu explodia, era na pancada mesmo, não sabia dialogar para resolver nenhuma questão”, resume.